A POLISSEMIA DO TERMO RETRADUÇÃO - MOMENTOS E CONDIÇÕES PARA A RETRADUÇÃO IDEAL
Tiago Hoge
Elaine Hoffmann Tenfen
Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI
Tradução (FLD217665LLA) – Trabalho de Graduação
01/04/25
RESUMO
Este artigo apresenta a discussão sobre a polissemia do termo retradução, seus diferentes tipos e um desenvolvimento sobre a definição de qual seria o momento ideal para se retraduzir um material textual a partir de causas e necessidades específicas.
A partir da avaliação qualitativa de diferentes produções acadêmico-científicas analisa-se o que já foi produzido metodologicamente sobre este tema e quais conclusões se pode afirmar em relação às motivações causadoras de uma retradução ideal.
Palavras-chave: tradução; retradução; nomenclaturas tradutórias; causas para retradução.
INTRODUÇÃO
A tradução como ofício tem sido essencial para o desenvolvimento do conhecimento ao longo de milênios. Apesar disto, seu estudo acadêmico e formal é relativamente recente, datando da década de 1960 a partir dos estudos de Eugene Nida, um dos pioneiros na estruturação e formatação dos Estudos de Retradução.
Incontáveis trabalhos, publicações e estudos científicos sobre este tema estão disponíveis na bibliografia atual, mesmo assim há certas lacunas em subtemas específicos que parecem carecer da atenção necessária nos Estudos de Retradução. Um destes subtemas, frequentemente subestimados ou relegados à segunda categoria de importância, é a retradução e suas características.
Retraduzir, assim como diversos dos verbos iniciados com a preposição “re” nos transmite a ideia de refazer algo que já foi concluído. Ou seja, repetir todo o esforço já exercido e iniciar novamente, a partir do zero. Muitas vezes a necessidade de retraduzir um texto parte de mudanças sociais ou linguísticas que obrigam os tradutores a atualizarem a linguagem anteriormente utilizada.
As retraduções são executadas em todos os gêneros discursivos, resultantes de diversas razões. Motivos tanto subjetivos como também práticos levam tradutores a retraduzir obras com variados enfoques e técnicas, mas apesar de a retradução ser relativamente comum, há pouca produção acadêmica sobre o tema, levando à falta de definições de termos, regras ou estruturas a serem seguidas no referente à essa prática, o que dificulta o trabalho do tradutor e impede a unificação de padrões de trabalho.
Por ser um campo de estudo relativamente novo esta área do conhecimento muitas vezes apresenta ambiguidades. Algumas destas lacunas referem-se a elementos importantes no tocante à retradução, por exemplo o momento ideal a se retraduzir ou quais os motivos que fazem um texto envelhecer e, portanto, ser necessária a retradução. Se, para Berman (1990), a primeira tradução é sempre falha e insuficiente, e se somente uma retradução pode se tornar uma grande tradução; questiona-se: por que este campo de estudo não é mais profundamente explorado e estruturado?
Embora a prática da retradução seja diversa e ampla, um tema é comum a todos que retraduzem: A definição sobre o momento ideal para retraduzir alguma obra. Sendo a retradução uma atividade que é causada por fatores externos ao tradutor ou mesmo à obra, existiria alguma fórmula a ser seguida para se retraduzir no momento certo e de maneira correta? Neste trabalho se questiona a possibilidade de haver um roteiro a ser seguido por tradutores para garantir a retradução apenas em momentos propícios e de maneira estruturada. E, havendo momento ideal para se retraduzir, há também etapas concretas que a retradução deve seguir? Diante das complexidades deste problema e com intuito de ampliar a noção dos conceitos desenvolvidos até hoje, desenvolve-se este trabalho. A partir dos autores pesquisados, esclarece-se aqui também outras dúvidas sobre a retradução, como: O valor da retradução em relação à tradução original, as nomenclaturas para definir os tipos de retradução existentes, o envelhecimento de textos, dentre outros.
Ao desenvolver um método a ser seguido para deixar claro quando e como a retradução deve ser feita, tradutores e autores em geral poderiam estruturar seus trabalhos de maneira mais clara e metódica. Se há momento certo, forma certa e os passos forem seguidos corretamente pode-se poupar tempo e trabalho desnecessário. Tradutores se beneficiariam deste gênero de manual a ser seguido e haveria clareza acadêmica maior sobre as questões tradutórias.
Definições e delimitações são importantes para que se possa entender claramente e especificamente sobre o que se está falando. Dentro dos estudos de retradução outra lacuna ainda aberta é a falta de nomenclaturas que definam os tipos de retradução. Essa falta de termos que nomeiem os tipos de retradução também pode induzir ao erro ou criar a necessidade de explicações longas simplesmente para definir que sentido quer se dar a uma palavra específica dentro de um texto. Assim acontece com a retradução: não há delimitadores sobre termos ou sobre estrutura. Não se sabe como ela deve ser feita ou o que deve causar ela ser necessária.
Desenvolver este tema e redigir sobre algo que não possui vasta literatura contribui para o desenvolvimento científico e abre margem para novas perguntas, subtemas ou até mesmo contestações, que acabam por desenvolver mais ainda o tema abordado e contribuindo com diversas áreas do conhecimento. Em tempos de produção de mídia instantânea e incessante se faz necessário e relevante discutir, por meio da tradução e retradução, a interligação e troca de informação entre culturas de diferentes línguas; trabalho intrinsecamente ligado à tradução. Estudar a necessidade da retradução para melhoria de uma tradução primeira agrega aos tradutores conhecimento que pode ser utilizado para trabalhar cada vez melhor. Melhores traduções significam melhor troca de conhecimento entre povos.
A partir deste entendimento, seguindo a linha de pesquisa 1: “Tradução e Cultura - Retraduções de Obras Literárias: como, quando, por que traduzir outra vez o que já foi traduzido”, apresentamos este projeto por meio de pesquisa bibliográfica extensa, focada em Retradução, seus tipos, técnicas, conceitos e nomenclaturas.
A pesquisa efetuada para este trabalho selecionou obras que contemplassem os temas já mencionados e que fossem conexas entre si, para assim desenvolver uma linha de raciocínio clara e contínua, aprofundando os conhecimentos já existentes sobre o tema e abrindo espaço para novos questionamentos e linhas de estudo. Deu-se preferência a estudiosos já conceituados nos estudos tradutórios. Discute-se, portanto, trabalhos de Bermann, Gambier, Faleiros, dentre outros devidamente explicitados e referenciados ao longo do texto. A seleção dos textos que formam este trabalho focou em responder as seguintes perguntas sobre o tema retradução: quando se deve retraduzir, o que é uma retradução, qual tipo de tradução ou retradução tem mais valor e quais lacunas existem nos estudos de retradução.
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
1 – Definindo o termo “Retradução”
1.1 - Delimitação do conceito de “Retradução” no presente artigo.
Para que possamos compreender o que é a retradução a partir do desenvolvimento dos temas mencionados, precisamos partir de um mínimo denominador comum, estabelecendo o que se entende por ”retradução”. A palavra retradução pode abarcar diferentes interpretações, causadas pela sua variedade de sentido. Isto favorece a ambiguidade dos estudos e dificulta a compreensão de quem lê. Para definirmos o tom de o que seria uma retradução exemplificaremos aqui algumas compreensões possíveis sobre este termo.
O sentido clássico e mais simples da palavra “retradução” nos transmite o conceito de “refazer uma tradução já finalizada”, ou seja, traduzir novamente um texto que já havia sido traduzido, independentemente de técnicas ou discussões sobre o texto fonte e o texto de chegada. Esta noção de retradução, na verdade, se chama tradução enquanto iteração. (LADMIRAL, 2012, apud FALEIROS; MATTOS, 2014, p. 38). A partir do dicionário online Michaelis temos a definição de retradução da seguinte forma:
“retradução. Re·tra·du·ção. Sf.
1 Ato ou efeito de retraduzir; nova tradução.
2 Tradução para outro idioma, baseada em uma tradução já existente: Muitos autores suecos são conhecidos somente através de retraduções.”
Também nesse sentido Antoine Berman, ao escrever para a revista Palimpsestes em 1990, define que “Toda tradução feita depois da primeira tradução de uma obra é então uma retradução.” (BERMAN, 1990, p. 262). Ou seja, para Berman qualquer tradução feita depois da primeira pode ser considerada uma retradução e não há distinção, num primeiro momento, sobre tipos de retradução ou variações.
Para nosso trabalho, esta será a definição escolhida. Toda e qualquer tradução feita após a primeira tradução é considerada uma retradução. Este sentido, porém, não é o único que este termo carrega. Vários outros também são possíveis através do mesmo termo. Para simplificar o entendimento dos próximos tópicos e definir uma base comum sobre o termo que será usado como base para este trabalho, tomaremos a primeira definição que trouxemos a este artigo, a definição de Berman: qualquer tradução nova é considerada uma retradução, independentemente de que subtipo de retradução ela seja. A partir desta classificação continuamos.
1.2 - Outras subcategorias na retradução e discussão sobre a polissemia do termo.
Para fins de esclarecimento sobre as outras possibilidades de sentido abarcadas pela palavra retradução faremos uma breve descrição de algumas das outras interpretações possíveis, assim colaborando com o desenvolvimento desta área dentro da Tradução e permitindo outros interessados a se aprofundarem em subtemas que não serão tão profundamente trabalhados neste artigo.
Por “retradução” pode-se inferir diversos tipos de retradução que não necessariamente são relacionados entre si. Por muitas vezes estes tipos diferentes de retradução são totalmente opostos e acabam por resultar em textos diferentes com consequências também diversas. Apesar dos Estudos de Retradução já possuírem uma base literária vasta proveniente de grandes estudiosos sobre o tema e de disporem de numerosas publicações sobre os mais diversos campos e linhas de pesquisa, a tradução ainda carece, em determinados aspectos, de estudos mais aprofundados e terminologia que defina conceitos específicos, como os tipos de retradução existentes ou as causas da necessidade de se retraduzir. Retraduções são parte integrante do processo tradutório, já que frequentemente livros precisam ser reescritos ou retraduzidos por razões que veremos mais a diante.
A falta de bases teórico-acadêmicas que deem sustentação à definição de nomenclatura dos tipos de retradução acarreta dificuldade de expor ideias e conceitos mais elaborados, uma vez que o autor do texto acadêmico deve a todo momento explicar suas escolhas terminológicas ao usar palavras específicas para referenciar o tipo de retradução efetuado. Este problema seria facilmente resolvido caso houvesse consenso sobre a nomenclatura de cada tipo existente de retradução. Aqui apresentamos definições já estudadas e devidamente embasadas em estudos acadêmicos, mas deixamos evidente que os termos usados para referenciar os próximos tipos de tradução ainda são campo de disputa entre estudiosos. Não há consenso acadêmico sobre a terminologia que usamos neste artigo. Já houve tentativa de se revisar a polissemia do termo “retradução”, vide Chevrel, Gambier e Ladmiral, mas nunca houve consenso nem força o suficiente que desse conta de desenvolver a cada tipo de tradução um termo específico.
A partir de estudos em tradutologia já se tem a noção de que a retradução pode ser dividida em tipos diversos. A semântica deste termo é ampla. Como resultado da vontade de expandir o entendimento deste conceito, após os estudos de especialistas em tradutologia, chegou-se no conceito de mais tipos de tradução, como por exemplo a Tradução como Iteração, Tradução Indireta (ACCÁCIO, 2010, p. 99), Tradução Direta, Retrotradução (CHEVREL, 2010, apud FALEIROS; MATTOS, 2014, p. 38.) dentre outros termos possíveis.
Como primeiro material de exemplo tomamos a Tradução Indireta ou TI, e a partir dela daremos sequência a outros gêneros de retradução. Tradução Indireta, em temos curtos e simplificados, é a tradução de uma tradução. A TI é uma segunda tradução que não se alimenta do material da produção original (texto no idoma original), mas sim de um já texto em outro idioma que não é o texto de partida em si. “A Tradução Indireta é um procedimento (e um resultado deste) de transpor textos, tendo como base uma tradução já existente, em alguma língua, do texto-fonte”. (ACCÁCIO, 2010, p.99). Esta noção de “tradução de uma tradução” também pode ser chamada de tradução intermediada, tradução de segunda mão, tradução de desvio, dentre outras (ACCÁCIO, 2010). Aqui já percebemos a quantidade de interpretações possíveis para um único termo.
Várias causas trazem necessidade de se fazer uso da Tradução Indireta, dentre elas: a falta de acesso à obra original e o desinteresse editorial da língua do texto-fonte. Muitas vezes, por falta de acesso ao original, utiliza-se uma tradução que esteja em uma língua mediadora como material tradutório. Invés de se traduzir do original se traduz sua tradução. Isto também ocorre quando o original é escrito em uma língua de poucos falantes ou mesmo uma língua que não tenha apelo comercial. Como não há interesse ou conhecimento pelo idioma da obra, se traduz a partir de algum outro idioma. (ACCÁCIO, 2010, p. 101-102).
A TI, por sua vez, se diferencia ainda da “retrotradução”. Retrotradução é o movimento de retorno, quando se retraduz de volta à língua original. Utiliza-se como base uma tradução em francês (por exemplo) a traduzindo de volta ao idioma original, inglês por exemplo.
[...] retrotradução, que consiste em traduzir novamente uma tradução para sua língua de partida, ao mergulhar de novo um texto em sua fonte para verificar as correspondências, a validade das escolhas feitas pelo tradutor (por exemplo: a tradução inglesa de um texto alemão, retraduzido em alemão). (GAMBIER, 2020, p. 302)
Além dos exemplos utilizados existem diversas outras vertentes de retradução. Nosso intuito aqui é esclarecer a multiplicidade de atividades contempladas na terminologia que se tem sobre esse conceito, deixando claro nosso conhecimento sobre a pluralidade de entendimentos possíveis; e abrir espaço para futuros aprofundamentos em cada tipo de retradução existente.
2 - Noção de retradução e causas para sua existência.
2.1 - Hermenêutica da Tradução
Partindo da noção de que retradução é apenas traduzir novamente algum texto-fonte que já foi traduzido, por que se retraduz? Por que se passa novamente pelo longo e detalhado trabalho de transferir para outro idioma algo que já foi traduzido? Refazer todo o caminho antes já percorrido e repetir todo o esforço já anteriormente aplicado aparenta (em um primeiro momento) ser um gasto excessivo e desnecessário de tempo.
A única necessidade evidente de retradução seria um texto ainda não traduzido para determinado idioma. Se um texto nunca foi traduzido ao português, entende-se claramente a necessidade de se retraduzir, afinal existe um público que ainda não tem acesso àquela produção textual. Mas, no caso de um texto ser retraduzido pela segunda ou terceira vez para o mesmo idioma da primeira tradução, não se precisaria repetir toda a cadeia de processos, em teoria. Ele já existe na língua em que se precisa. O texto já existe tanto na língua original como na língua de chegada. Aqui levantamos nossa proposta: entender por que se retraduz se o texto já foi traduzido uma primeira vez. Quais são as causas para essa ação de traduzir novamente? Nosso objetivo é discutir as razões que levam tradutores a retraduzir e se há realmente essa necessidade.
Entende-se que, para os tradutores, a prática da retradução é tão antiga quando a tradução em si. Se retraduz tanto quanto se foi traduzido. Vide o exemplo sobre a quantidade de traduções e retraduções da Bíblia, um dos primeiros livros do qual se tem registro.
[...] a retradução enquanto prática sempre foi praticada; basta ter em mente o exemplo da Bíblia, o texto mais retraduzido da história da tradução – 337 traduções integrais e 2000 parciais (OSEKI-DÉPRÉ, 2003). Texto de Thiago e Faleiros referenciar apud (OSEKI-DÉPRÉ, 2003, apud FALEIROS; MATTOS, 2014, p. 37).
Apesar desta variedade de retraduções e da naturalidade com que sempre se retraduziu, não há até hoje material suficiente que se debruce sobre este tema intrinsecamente existente no mundo da tradução. Diversos autores, ao tratarem sobre retradução, trazem essa mesma chamada: não há muitos estudos sobre o tema retradução. “Apesar de ser uma prática tão corrente, ou mais, do que a própria tradução, devido ao constante interesse comercial e acadêmico pelos textos canônicos, a retradução tem sido objeto de poucas análises” (FALEIROS, 2009, p. 145).
Com o intuito de esclarecer um pouco mais este tema apenas superficialmente estudado, propomos aqui o primeiro tópico para pensarmos o tema retradução e suas causas: a interpretação de cada leitor sobre textos traduzidos ou hermenêutica da tradução.
Analisando qualquer texto produzido percebemos que todas as produções textuais de qualquer gênero discursivo são passíveis de interpretação. Toda ideia comunicada por um orador, escritor ou enunciador emite uma mensagem que não necessariamente será compreendida de maneira uniforme entre os ouvintes, leitores e receptores daquela mensagem. A divergência de compreensão sobre o sentido da mensagem é característica intrínseca de todo texto. Cada receptor pode desenvolver um entendimento diferente do que acabou de ler, ouvir ou ver, a isso chamamos de hermenêutica; que pode ser uma das pistas para nos ajudar a entender a causa de uma retradução: as diferentes leituras que se pode fazer sobre um texto-fonte.
Utilizando o exemplo de Faleiros sobre a Bíblia para dar sequência a este raciocínio, podemos pensar sobre quantas foram as interpretações que já houve sobre um determinado trecho ou um determinado capítulo deste livro. A Bíblia é um dos exemplos mais palpáveis que temos sobre como um texto pode ser compreendido de diferentes maneiras dependendo de quem o lê. Assim também acontece com as traduções.
Cada tradução é resultado de uma leitura diferente, de uma compreensão diferente sobre um mesmo texto. O texto-fonte permite, assim como qualquer texto, diversas leituras. A partir disto, dois tradutores que traduzirem um mesmo texto podem ter interpretações diferentes e enfatizar diferentes elementos de um mesmo original. O original não se altera, mas as suas traduções sim. O resultado destas traduções é a diferença de entendimento da mensagem. Gera-se aqui dois textos de chegada diferentes para um mesmo texto-fonte.
O tradutor, portanto, pode se sentir inclinado a retraduzir uma obra para tentar extrair e divulgar um entendimento que ele capturou do texto-fonte. Entendimento esse que, talvez, ainda não tenha sido explorado de maneira apropriada:
[...] Gambier esboça algumas respostas parciais, que abrem pistas de trabalho. O autor destaca dentre as possíveis razões de uma retradução, o fato de esta ter como intuito: dar visibilidade a partes suprimidas de uma obra (nesse sentido uma retradução seria em certa medida uma primeira tradução); [...]. (FALEIROS, 2009, p. 149).
O texto original ou texto-fonte é o primeiro texto. É como uma produção pétrea que não se altera. O que se altera são as traduções derivadas deste texto pétreo imutável. O original é o texto base. Não pode ser refeito pois é o primeiro independente do que aconteça. Já foi produzido e pronto, é a criação em si. Já a tradução é totalmente alterável e substituível. Basta uma nova versão surgir para que esta primeira tradução seja suprimida. Esta necessidade mencionada por Gambier que pode existir em revelar aos leitores uma nova interpretação sobre uma produção já existente pode ser uma das razões pela qual se retraduz. A retradução, neste sentido, nasce da necessidade de haver mais possibilidades de registro sobre o entendimento de uma mensagem.
A abordagem que se utiliza sobre cada tradução pode ser diferente, o que expõe sentidos ainda não revelados, mas latentes no original. Compreensões de sentido ainda não catalisadas a um entendimento mais divulgado, estabelecido ou firme. Ao se retraduzir dando enfoque em mostrar ao leitor uma nova percepção capturada, pode-se ter um desenvolvimento no entendimento sobre o original. Neste sentido a nova tradução veio ao mundo por conta da vontade de um tradutor ou outra pessoa de fazer esta visão sobre o texto ser publicada e difundida.
A partir do conceito de hermenêutica entendemos que variados leitores possibilitam variadas leituras sobre um mesmo produto. Cada um está inserido em um contexto diferente e tem formações diferentes que os obrigam a apreciar o texto de formas também distintas. Theo Amon, ao publicar em 2019, explicita este ponto sobre a interpretação das traduções de maneira extremamente clara:
Um outro momento de desatualização é o da interpretação que uma dada leva de leitores do original, entre leigos e especialistas, está inclinada a dar ao livro. Todo leitor está imerso em um contexto que condiciona e guia a sua leitura em mais de um plano: linguístico, filosófico, ideológico, estético-literário, imagético, intertextual etc. Esse pano de fundo sofre sensíveis alterações com o tempo; logo, nada mais natural que o mesmo livro seja objeto de visadas interpretativas cambiantes, podendo mesmo, conforme o seu potencial, privilegiar leituras diametralmente opostas dentro de um período nem tão longo. A escolha do texto para retradução aí é predicada em uma interpretação que difere daquela inscrita em uma versão anterior, que se tornou inaceitável ou que agora é considerada insuficiente em algum aspecto. Isto é, a tradução antiga não tinha nada de "errado" em si: só não se presta às interpretações que hoje se aplicam ao original. Assim, precisamos novamente retocar o nosso símile e conceder: as traduções também envelhecem, mas, ao contrário do texto-fonte, podem ser reenunciadas sem que sejam por isso desclassificadas como um subproduto ou contrafação [...]. (AMON, 2019, p. 233).
Aqui já conseguimos definir um dos possíveis motores da necessidade de retraduzir: captar e difundir ideias ainda não explicitadas em traduções anteriores. Cada nova retradução pode dar ênfase em uma interpretação diferente sobre o texto original e abrir caminho para que se aprofunde aquele novo entendimento. O excerto de Theo Amon, porém, também nos esclarece outras duas variáveis que podem fomentar a necessidade de se retraduzir determinado texto: o tempo no qual se está inserido e insuficiência da tradução anterior.
2.2 - Tempo e Envelhecimento.
A passagem de tempo também mostra características de ser um fator que influencia a necessidade ou não de se traduzir novamente. Como dito por Amon (2019) no trecho anteriormente citado, “Esse pano de fundo (o contexto no qual o leitor está inserido) sofre sensíveis alterações com o tempo”. Condições políticas, sociais, educacionais e pessoais são apenas algumas das condições que se alteram conforme o tempo passa. Essas condições são fatores que influenciam no entendimento que as pessoas têm sobre o mundo e como elas o interpretam. Sendo alterável o entendimento que as pessoas têm sobre algo, também é, portanto, variável a interpretação que se tem sobre textos. Um mesmo trecho pode ser interpretado de maneiras diferentes dependendo de quando ou onde se lê.
Conforme o tempo se projeta acumulamos história e conhecimento sobre determinados assuntos. Estes aprendizados, por sua vez, moldam a forma como entendemos o presente, o passado e o futuro. Acumulamos conhecimento e inteligência permitindo que tenhamos uma visão mais assertiva e ampla de decisões a serem tomadas no decorrer do tempo. Assim também o conhecimento e o acúmulo de informações nos permitem fazer novas leituras, influenciando nas escolhas dentro de uma tradução. Conforme novas possibilidades de leitura são apresentadas, também se apresentam por meio delas novas traduções possíveis, causando retraduções.
Continua Amon: “[...] logo, nada mais natural que o mesmo livro seja objeto de visadas interpretativas cambiantes, podendo mesmo, conforme o seu potencial, privilegiar leituras diametralmente opostas dentro de um período nem tão longo.”. Basta pouco tempo decorrido para que exista a chance de haver leituras opostas ou dissonantes. O tempo e local no qual o tradutor está inserido reflete diretamente na sua leitura sobre o original, e, portanto, reflete também na sua tradução. A relação de tempo entre o original e a tradução interfere no processo tradutório. “Qual é o distanciamento no tempo deste original? Este último ponto deve ser tratado de maneira especial se a primeira tradução pôde ser realizada logo após a publicação do texto de partida, isto é, em condições e com limitações desconhecidas para a retradução.” (GAMBIER, 2010, p. 305). Também explicita Sigmund Kvam:
Considerar a tradução como uma ação linguística e comunicativa significa ainda que a tradução é definida como uma ação social e, portanto, convencionalizada. Isso significa, por sua vez, que a tradução não se limita exclusivamente a signos linguísticos, mas que outros signos semióticos também acompanham, em regra, essa comunicação predominantemente moldada por signos linguísticos e contribuem para moldar o seu significado. (KVAM, 2024, p. 115 - 116).
Essas variáveis de local e tempo condicionam marcas que facilmente são absorvidas pela tradução/retradução. Tanto o tempo em relação ao original como também tempo no sentido de época. Época na qual o tradutor está presente. A tradução, como qualquer outro texto, é condicionada a carregar pistas e elementos do tempo e local no qual foi escrita; também carrega marcas em relação a quantidade de tempo em que se distancia do original; a forçando, portanto, a constantemente ter de ser reescrita ou reformulada. Tais características intrínsecas a uma tradução, porém, dão a cada uma das traduções validades diferentes. Algumas traduções resistem mais ao envelhecimento do que outras. Em termos subjetivos: ela envelhece melhor.
[...] Atividade sujeita ao tempo – tempo de recepção, duração do próprio processo, aceitabilidade datada do produto da transferência –, a tradução é sempre um ato inacabado, a ser refeito. Mas nem todas as traduções envelhecem no mesmo ritmo, no mesmo grau. (GAMBIER, 2010, p. 305).
Para além das possíveis causas de uma retradução já mencionadas, temos também uma outra particularidade de qualquer produção humana: o envelhecimento. Toda produção textual, ao se concretizar como obra de algum autor, está sujeita a se fixar no tempo no qual foi produzida. Textos têm data de publicação; e autores escrevem em uma determinada época na qual estão vivos. Assim também acontece com as traduções e retraduções; cada uma fica invariavelmente atrelada a uma era específica, à uma época. Existe aqui um “Zeitgebundenheit” usando termos de Heidegger. Zeitgebundenheit refere-se à ideia de que os seres humanos e suas ações estão condicionados, limitados e definidos pelo tempo. Ou seja, nossas experiências, decisões, existência e consciência estão intrinsecamente ligadas à temporalidade: ao passado, presente e futuro.
Este prendimento que um texto tem ao seu tempo também deixa marcas. É notável que um texto antigo nos cause estranhamento no tocante às escolhas lexicais, estrutura e até mesmo gramática ou semântica. É natural, já que a língua é viva e se altera ao passar dos anos. Essas marcas, porém, afetam originais e traduções de formas diferentes. Enquanto um original não se altera e permanece em si mesmo, integro e completo, uma retradução pode envelhecer ou se tornar obsoleta.
O texto original, ao ser publicado ou divulgado, já é o que se pretende ser. O texto original é imutável e não envelhece. O texto-fonte de uma tradução é, por si só, uma fotografia do tempo no qual surgiu. É um texto que não pode ser alterado ou reescrito, uma vez que é o original em si primeiramente. “[...] os originais permanecem eternamente jovens (não importando o grau de interesse que se tenha por eles, sua proximidade ou seu distanciamento cultural)”. (BERMAN, 1990, p. 262).
Já a tradução de uma obra leva em consideração mais elementos. Dentre eles o entendimento que se tem sobre o original e sua eternidade no período específico no qual se está retraduzindo. O tradutor leva em conta a literatura, a cultura e a história atuais e tenta aproximar o leitor (que está inserido neste contexto) ao texto original. Essas considerações são extremamente relevantes no momento de uma tradução, já que ela precisa transportar o leitor de maneira eficaz e clara a uma produção sempre anterior ao momento em que se traduz.
Este contexto e momento porém, se alteram conforme o tempo passa e conforme todo o resto muda. As mudanças e perecibilidade destas condições acaba por tornar a tradução suscetível ao envelhecimento e ao estranhamento do leitor caso ele se depare com uma tradução ou retradução que não seja atual. Ou caso o tradutor não tenha feito esta transferência de maneira suave e adaptada. Sendo este o caso, será necessária uma nova tradução (retradução) que adeque novamente o leitor à produção primeira. A liquidez do momento e a rapidez na mudança tornam traduções sempre e cada vez mais ultrapassadas. A tradução envelhece, e para continuar útil e utilizável necessariamente terá de ser refeita.
Correspondendo a um estado determinado da língua, da literatura, da cultura, acontece que, muitas vezes de maneira bem rápida, elas não respondem mais ao estado seguinte. É preciso então retraduzir, pois a tradução existente não desempenha mais o papel de revelação e de comunicação das obras. (BERMAN, 1990, p. 262).
Ao se tornar ultrapassada a tradução não carrega mais consigo a amplitude do original. Ela acaba por perder sentido e se tornar obsoleta. Então “É preciso retraduzir porque as traduções envelhecem e porque nenhuma é a tradução: assim vemos que traduzir é uma atividade submetida ao tempo e uma atividade que tem uma temporalidade própria: a da caducidade e do inacabamento.” (BERMAN, 1990, p. 262).
2.3 - Insuficiência e correção de erros.
Aqui esclarece-se um terceiro ponto sobre as causas de uma retradução. Este tópico foca em esclarecermos a necessidade de suprimir, ou pelo menos, diminuir inconsistências em traduções anteriores.
Outro olhar importante para entendermos os fatores que contribuem para a criação de uma retradução é a insatisfação que o tradutor pode ter com traduções anteriores. A crítica às traduções que não abarcam os sentidos latentes pode também ser motor propulsor da nova atividade tradutória. Diz também Amon no mesmo trecho já mencionado anteriormente: “A escolha do texto para retradução aí é predicada em uma interpretação que difere daquela inscrita em uma versão anterior, que se tornou inaceitável ou que agora é considerada insuficiente em algum aspecto”. (AMON, 2019, p. 233).
Ao se retraduzir com intuito de fazer crítica às traduções anteriores abarca-se mais do que apenas fazer uma versão de mais prestígio. Amon chama a correção de erros da tradução anterior de “caça às pérolas” e afirma que a atitude mais comum em retraduções é procurar e corrigir erros linguísticos:
“Via de regra, retraduções buscam transcender as versões anteriores, superando os defeitos que, pensa-se, as macularam [...] o apanágio mais celebrado das retraduções é correção de deficiências propriamente linguísticas das traduções pioneiras. Nisso, elas estão alinhadas à forma mais comum de crítica da tradução, que se concentra, em grande medida, em assinalar deslizes de compreensão do texto-fonte ou de manejo da língua alvo (sob uma perspectiva normativa, está entendido). É a conhecida “caça às pérolas”, isto é, a listagem e retificação de lapsos grosseiros e, muitas vezes, engraçados. (AMON, 2019, p. 234.)
Amon, no trecho citado, faz alusão a todos os tipos de tradução anteriores à retradução em andamento; mas, de toda forma, podemos relacionar este argumento com um conceito de Berman em seu famoso artigo para a revista Palimpsestes (1990), também já anteriormente citada, que ele chama de “insuficiência”. Para ele toda primeira tradução é insuficiente e toda retradução tenta compensar essa falta. Para Berman, a primeira tradução evidencia a insuficiência no seu estado de ápice, isto invariavelmente. A retradução vem da intenção de diminuir essa insuficiência e lapidar o texto de chegada a cada nova tradução.
Toda tradução é insuficiente, ou seja, entrópica, quaisquer que sejam seus princípios. Isso quer dizer que: toda tradução é marcada pela “não-tradução”. E as primeiras traduções são aquelas que são mais tocadas pela não-tradução. Tudo acontece como se as forças antitradutórias que provocam a “insuficiência” fossem, aqui, todas poderosas. Se a insuficiência, isto é simultaneamente a incapacidade de traduzir e a resistência ao traduzir, afeta todo ato de tradução, há entretanto uma temporalidade desse ato (temporalidade tanto psicológica quanto cultural e linguística) que faz com que seja em seu início (na primeira tradução) que a insuficiência está em seu máximo. A retradução surge da necessidade nem tanto de suprimir, mas pelo menos de reduzir a insuficiência original. (BERMAN, 1990, p. 265-266).
O tradutor retraduz (ou tem vontade de retraduzir) para corrigir erros, tem o intuito de reduzir o vão que se abre entre o texto-fonte e o texto de chegada quando a primeira tradução é realizada. Para Berman, cada nova retradução que surge tenta aproximar cada parte e diminuir este vão, trazendo os dois corpos textuais para mais próximos um do outro. Cada retradução nova traz consigo também uma nova correção ou adaptação que aproxima a tradução do original.
Estas alterações e correções das chamadas insuficiências, porém, ocorrem eternamente. Para Antoine Berman não há como anular todas as falhas de um texto na retradução. “Na grande tradução, a insuficiência continua presente, mas contrabalanceada por um fenômeno que podemos chamar, com os tradutores do século XVI, a cópia, a abundância” (BERMAN, 1990, p. 266). Aqui, por “grande tradução”, entende-se o conceito de Berman de que apenas uma retradução pode se tornar uma grande tradução ou uma tradução que tem mais brilho que o original. “A grande tradução” quer dizer uma retradução excelente que perdurou no tempo.
3 - O uso do termo Retradução e sua indução ao equívoco.
Para arrematar este trabalho e abrir a possibilidade de uma nova discussão retomamos aqui o tema da definição de nomenclatura e a indução ao erro que o termo causa. A utilização do termo “retradução” compreende traduções de diversos tipos. Ao utilizarmos o substantivo “retradução” deixamos seu sentido amplo, abstrato, mas principalmente ambíguo. Essa abstração e subjetividade no uso da palavra obriga quem a utiliza explicar de qual retradução se faz alusão. Especialmente em ambientes acadêmicos a capilaridade de conceitos se mostra positiva, já que delimita do que, e sobre o que se fala. O termo retradução não explicita esta capilaridade e não evidencia se a tradução em questão seria uma tradução direta, indireta, terceira ou outra de qualquer natureza. Ao utilizar o termo, poderia estar se falando sobre a segunda vez que se traduz um texto-fonte inglês para o português. Ou seja, uma opção de uso para o termo retradução é quando se cria a segunda versão em português de um texto no idioma inglês. Este sentido de uso é válido e correto, mas apenas porque não há atualmente definição clara em relação às nomenclaturas dos tipos de retradução.
Outro texto, que também se denomina “retradução” é uma tradução traduzida. Um texto em português que é uma tradução alemã de um texto russo, por exemplo. A partir da falta de nomenclatura que diferencie o primeiro exemplo do segundo cria-se uma deficiência básica que evidentemente atrapalha e dificulta os estudos tradutórios. A clareza sobre ao que se refere é essencial para que a comunicação seja efetiva. Somente com duas pessoas compreendendo exatamente sobre o que se fala é que há comunicação. A falta de diferenciação dos tipos de tradução impede que essa clareza seja fácil de atingir. A todo momento se deve especificar e explicar novamente sobre qual tradução se está falando.
Não são somente esses os tipos de retradução que existem e que são banalmente denominados “retradução”. Pode-se mencionar a chamada “tradução de retorno”, onde um texto é traduzido pela primeira vez e então na segunda tradução retorna à língua de origem. Toda uma gama de tipos de tradução é abarcada por este termo que não dá conta de carregar todos os sentidos possíveis. Existem tentativas de uso de termos específicos que se referem a cada tipo específico de tradução, como as chamadas “tradução direta” e “tradução indireta” ou por exemplo a “tradução reversa”. Estas nomenclaturas, porém, não são totalmente consolidadas e muitas vezes não abarcam por completo o sentido que pretendem transmitir.
Por conta das características diversas que cada abordagem tradutória apresenta, a existência de termos que diferenciem os tipos de retradução beneficiaria enormemente tanto os especialistas em estudos tradutórios como leigos que estudam o tema. As técnicas utilizadas, os processos tradutórios e os objetivos de cada tradução são diversos, portando também sua nomenclatura seria mais assertiva caso houvesse especificidade maior na escolha dos termos. Por ser um campo de estudos relativamente recente, mostra-se natural a falta de conceitos e nomenclaturas. Há, portanto, uma lacuna que pode ser preenchida. Há, neste quesito, uma possibilidade de expandir a tradutologia.
MATERIAIS E MÉTODOS
O trabalho aqui apresentado foi desenvolvido a partir de uma vasta pesquisa bibliográfica e documental com foco na análise da produção científica a respeito do tema retradução e suas características. O objetivo desta análise foi comparar e encontrar similaridades entre as existentes teorias sobre o assunto.
O corpo desta análise compôs-se de artigos científicos, artigos para revistas científicas, livros e periódicos sobre Estudos de Retradução. A pesquisa feita foi realizada em plataformas como Google Scholar, TradTerm, Editoras oficiais de Universidades Federais brasileiras e publicações científicas europeias. O período de publicação destes textos foi limitado às publicações realizadas entre os anos de 2009 e 2025. Este período precisou ser ampliado a pesquisas tão longínquas quanto 2009 por conta da escassez de publicações científicas sobre o tema retradução disponíveis nos idiomas acessados.
Ainda referindo-se aos idiomas das referenciadas publicações, utilizou-se tanto o idioma português como também o alemão para ampliar a discussão, uma vez que há, neste último idioma, vasta produção acadêmica sobre o referido tema.
Sobre os critérios de seleção documental para análise: Foram incluídos textos que apresentassem ao menos uma das seguintes características:
a) discussão conceitual sobre retradução e suas variantes.
b) análise de casos de retradução literária e suas respectivas nomenclaturas.
c) reflexão sobre motivação, funções e impactos da retradução.
d) excluíram-se trabalhos cujo foco fosse exclusivamente revisão de tradução, edição textual ou retrabalho linguístico sem relação com o conceito teórico de retradução ou análise subjetiva e rasa em relação à qualidade da tradução aferida.
O procedimento de análise foi qualitativo e interpretativo com base na leitura integral dos textos selecionados, buscando identificar pontos de convergência e divergência na produção acadêmica do tema, bem como tendências presentes no período delimitado. Como esta pesquisa se baseia exclusivamente em fontes secundárias e não pretende generalizações estatísticas, seus resultados refletem um panorama interpretativo da literatura apresentada no trabalho, também sujeito às limitações de acesso às consultas e ao recorte temporal adotado.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Apresenta-se nesta seção os resultados obtidos a partir da pesquisa bibliográfica efetuada e discorre-se sobre as respostas encontradas para responder às perguntas propostas no início deste trabalho: o que é uma retradução, quando se deve retraduzir, qual retradução tem mais prestígio e quais lacunas existem nos estudos de retradução.
A partir da pesquisa efetuada nos estudos de retradução deste trabalho, compreende-se que a retradução não pode ser definida como uma única atividade ou método. A retradução não se resume em retraduzir pela segunda vez um texto que já havia sido traduzido em um par específico de idiomas como há muito se acreditava ou difundia por conta de Berman (BERMAN, 1990, p. 262). A retradução é, portanto, uma multidisciplinaridade que envolve diversos aspectos e que depende de diversos fatores.
A definição de retradução, a partir do material discutido aqui, amplia seu significado para diferentes possibilidades e métodos. Como discutido anteriormente este termo é embebido por uma polissemia e induz ao erro de acreditarmos que todas as outras formas de tradução são coisas outras que não retradução por ela mesma. Ao analisar cuidadosamente a literatura referenciada entende-se que retradução pode, por exemplo, se estender à tradução como iteração, tradução direta, tradução indireta, retrotradução, dentre também outras não discutidas neste trabalho.
Percebe-se, então, que a noção de retradução deve ser ampliada para abarcar todas estas possibilidades não frequentemente discutidas ou esmiuçadas; tomando, naturalmente, as devidas nomenclaturas que se aplicam a tais termos para que se evite qualquer incongruência na utilização do termo polissêmico “retradução”. Nomenclaturas estas que, ao serem utilizadas, ainda se mostram muito inconsistentes e mal padronizadas entre os estudiosos do tema. Como apresentado anteriormente, percebe-se a irregularidade e a falta de consenso entre especialistas em padronizar termos para cada tipo de retradução aqui mencionado. Esta falta, como discutido, acaba atrasando o desenvolvimento dos Estudos de Retradução. Abre-se aqui nesta lacuna a possibilidade de um novo debate aos estudos tradutórios: padronização de nomenclaturas.
CONCLUSÃO
O presente artigo teve como objetivo analisar a polissemia do termo retradução e se há um momento ideal para retraduzir, buscando compreender a falta de consenso na terminologia a partir de uma análise qualitativa de produções acadêmicas sobre o tema, como descrito anteriormente na seção de materiais e métodos. Ao longo do estudo, foi possível observar que existem várias condições e causas para o surgimento da necessidade de se retraduzir, assim como existem diferenças contundentes entre os tipos de retradução existentes e as necessidades de cada um desses meios.
A partir da revisão teórica e da análise dos dados obtidos, constatou-se que um dos principais, senão o mais relevante causador da necessidade em se retraduzir é a chamada “Insuficiência” das traduções anteriores. A insuficiência na extração de significados latentes no texto de origem (ou texto fonte) evoca no tradutor experiente uma obrigação em coletar, analisar e exprimir por meio de um novo texto os significados e interpretações anteriormente esquecidos, ou mesmo, conscientemente ignorados pelo tradutor primeiro. A reescrita deste texto original, à luz da interpretação subjetiva do tradutor, traz por meio de uma nova tradução a ampliação de significados antes escondidos e não aproveitados. Como já anteriormente descrito, as traduções são todas falhas e não conseguem em uma única vez exprimir tudo o que o original exprime.
Este ponto acaba levando o profissional tradutor ao trabalho de corrigir estes “erros” para polir o material e levá-lo a um novo estado de completude, onde carrega, então, uma carga a mais em relação à sua tradução anterior. Este trabalho de correção e polimento do texto visa aprimorá-lo eternamente até chegar na assim conhecida e denominada “grande tradução”. Momento esse onde, a princípio, a tradução estaria em seu estado mais perfeito e final, no qual não há mais o que corrigir, polir ou extrair em relação ao texto fonte.
Ainda sobre o momento em que surge a necessidade de se retraduzir podemos concluir que o Zeitgebundenheit é intrínseco às traduções. Toda produção humana, neste caso as produções textuais, está e sempre será indissociável ao tempo no qual foi produzida. A partir de determinado momento, capturado pela subjetividade do tradutor, a tradução acaba por se desprender do tempo presente e ficar atrelada demais ao passado, causando estranheza. Neste momento se cria a necessidade de retraduzir para que o original consiga sobreviver ao tempo.
Por último concluímos também que grande parte da definição de momento ideal para se retraduzir parte do entendimento do profissional tradutor sobre aquela peça. Não se pode definir momento exato a partir do qual se deve retraduzir. Esta hermenêutica é puramente subjetiva a depender do conhecimento e experiência do tradutor que analisa o texto. Cada produção é única, relacionada a um autor, tempo, condição, cultura, gênero discursivo e método de escrita diferentes. Isto causa, consequentemente, necessidades de retradução e envelhecimentos diferentes de cada material.
Estes achados reforçam a importância de uma boa formação do tradutor e um olhar aguçado, capaz de identificar o momento de se retraduzir e qual abordagem de retradução se deve utilizar. Além disso, este trabalho evidenciou que ainda se apresenta uma escassez em discussões científicas sobre este tema. Apesar das limitações da pesquisa, como a dificuldade em encontrar produções recentes ou em português brasileiro sobre o tema, os resultados alcançados oferecem subsídios para futuras investigações.
Espera-se que produções científicas novas possam explorar mais as causas para a necessidade de retraduzir e as incongruências entre nomenclaturas, aprimorando o entendimento sobre a polissemia do termo e seu momento e condição ideal de aplicação. Portanto, conclui-se que a retradução é parte essencial e integrante da tradução maior e que ainda há espaço para o aprofundamento massivo do tema.
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